sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O director

Querem ler uma gracinha travestida de liberdade poética? “Fui convidado para o cargo de director da revista Maria mas não aceitei pois não me iria sentir plenamente realizado; é que o meu sangue só ferve quando carrego móveis e pianos...”. Claro que se trata apenas de um sonho, uma vez que a Maria é demasiado sofisticada para mim... Na verdade, nem sequer sou jornalista, o meu ganha pão está no comércio de arte e antiguidades, ou seja, nunca faltam pianos, móveis e outros carregamentos... Se um homem é considerado pela sua condição profissional, então sou um simples comerciante e carregador de pianos; se um ser humano é considerado pela sua personalidade, então peço-vos que sigam a minha escrita: inteiramente livre, nunca condicionada por algum interesse privado ou político, apenas pela fruição da palavra.
Serve este intróito para vos falar do director do semanário O Figueirense, Joaquim Gil. Perguntarão de imediato: “mas tem algum interesse escrever sobre um irrelevante director de um jornal local?!” (há quem alvitre tratar-se de um boletim de uma empresa, mas passemos à frente). De facto, não tem; mas reparem no seguinte: a publicação (assim evitamos considerações) é dirigida por Joaquim Gil, ilustre advogado da praça coimbrã! Mas, dirão, pouco importa uma licenciatura em jornalismo, o que importa é que o director tenha tarimba nas funções de jornalista, que conheça a redacção de um jornal a fundo e a realidade social do concelho; infelizmente, a experiência jornalística passada do director Gil resume-se a uns artigos de opinião publicados na imprensa local e o conhecimento social do concelho…, bom, se o concelho fosse a mesa onde lança, sempre em “boa” companhia, alguns empertigados perdigotos... Mas pronto, enfim, nos tempos que correm, qualquer um pode ser tanta coisa...
Mas façamos como escrevi no intróito: “se um ser humano é considerado pela sua personalidade, então peço-vos que sigam” a escrita de Joaquim Gil. Antes, uma nota histórica prévia: o semanário O Figueirense pertence ao Casino da Figueira e foi dirigido durante largos anos por António Jorge Lé, também funcionário do Casino. Jorge Lé raramente tomava posições políticas e, por isso, foi com agrado que assistimos à ascensão de um director interveniente e opinativo como Gil na actual fase política da Figueira da Foz. O problema é que Joaquim Gil prometeu ser isento e equidistante, e o resultado foi este: Joaquim Gil malha semanalmente nos mesmos, nunca nos “outros”! Pior que isto, é que basta ler O Figueirense e ter um pouquinho de honestidade intelectual para concluir o seguinte: Joaquim Gil segue a agenda política e os interesses de uma facção do PSD... E, mais grave, Gil tem algumas “espinhas” (invejinhas) engaioladas no seu sótão, às quais recorre amiúde para fazer uma qualquer catarse. 
Apesar da promessa, ainda valerá a pena seguir a escrita de Joaquim Gil? Recordar, por exemplo, um editorial recentemente publicado, intitulado “Os Jovens Turcos”, onde Gil, para atacar a maioria, sugeria que só quem não tem “modo de vida” é que enveredava pela política, pois só o fazem os que são atraídos pelas “prebendas da coisa pública”. Então, João Ataíde não é Juiz de profissão, Monteiro e Tavares não são professores de carreira e Isabel Cardoso não é técnica superior do Estado?! E não é verdade que João Ataíde perde mensalmente centenas de euros de renumeração, por ter trocado o ordenado de Juiz pelo de Presidente da Câmara?! Enfim, ataque-se politicamente as ideias e as medidas e, se for caso, as pessoas, mas com verdade.
Esta é outra faceta de Gil: a mentira insidiosa, a suspeição clara de quem atira a pedra e esconde a mão, enfim, o exercício da menos nobre das qualidades humanas: a pequena hipocrisia.
Uma última nota: recentemente, um amigo meu quis responder a uma inverdade que Gil escreveu num seu editorial e o director de O Figueirense recusou-se a publicar a resposta, ou seja, censurou o texto em causa...!
O que se pode escrever mais perante tudo isto?! Não é um fado triste haver um semanário da cidade que pouco mais é do que um boletim publicitário ao serviço dos interesses comerciais e políticos do Casino e de uma facção partidária?!
Não é muito triste, um director de jornal censurar textos que contêm respostas que lhe são incómodas?!
Meus amigos, ainda bem que o meu “modo de vida” é outro: carrego móveis e pianos sem mais nenhum interesse que não seja tão igual ao do honesto padeiro de Adam Smith que, ao fazer o bem a si próprio, o fazia também aos outros.
Sinto-me plenamente realizado assim, o meu sangue até ferve quando carrego pianos; será que Joaquim Gil alguma vez vai sentir o mesmo, apesar de nos revelar que é feliz?
Duvido.

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