sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A Cultura


A desordem das nações impera; o governo não governa, a oposição não faz truca-truca, Ataíde poupa dinheiro e faz obra; esta sensação de desordem e delírio colectivo tinha que ter um fim... Acabo de receber a boa nova: Miguel Almeida, em caso de vitória, será o responsável pelo turismo figueirense!

Tudo vai voltar ao normal, avizinham-se enormes e grandiosos feitos! A Figueira voltará a sair da Região de Turismo Centro. Todos os outros concelhos da região, que fazem parte da região de turismo, estão enganados! A Figueira não precisa de ninguém para se promover!

Regressam as comitivas camarárias – que incluíam amigalhaços, jornalistas e empresários – em direcção a Madrid, Barcelona, Paris, Milão; sabiam que o Luís Figo esteve presente no stand da Figueira na feira de turismo de Madrid? Este facto não nos enche o coração de orgulho?!

Estes passeios pela europa custaram milhares de euros! E eu pergunto: quantos turistas italianos, espanhóis ou franceses vieram à Figueira graças a estas comitivas?! Não importa, o que é relevante é o Figo ter estado com a Figueira em Madrid!

A propósito de Luís Figo; lembram-se de Miguel Almeida ter anunciado que o futebolista viria explorar a discoteca Pé-de-Salsa?! A Câmara fazia o investimento, na ordem dos 350 mil euros, e depois Luís Figo concessionaria o espaço; só assim se justificava um tão avultado investimento camarário numa discoteca!

Luís Figo nunca apareceu... Miguel Almeida irá devolver o dinheiro aos figueirenses?!

Mas pouco importa uma reles discoteca, a estratégia turística de Miguel assentava nos grandes eventos, em grandes espectáculos de música e fogo de artifício!

Querem um exemplo?

Na reunião de Câmara de 17/02/1999, foi  adjudicada uma consultadoria à “Firma CC2, Informática  Audiovisuais e Eventos Ldª., no valor de 19.800$00 (dezanove milhões e oitocentos mil escudos) sem IVA” – estou a citar a acta da reunião de Câmara em causa -, para que se pudesse elaborar um “conjunto de iniciativas de relevo, a realizar em conjunto com a Câmara Municipal de Coimbra, e que destaquem a Zona Centro do País nas Comemorações da Passagem do Milénio.” – (nesta parte, reproduzo as declarações do vereador Pereira da Costa, autarca que, na reunião em causa, apresentou a proposta).

Repito: a autarquia pagou cerca de 100 mil euros a uma empresa de Lisboa – vejam o amor à Figueira e às empresas do concelho, esta CC2 era de Lisboa e tinha como sócio principal Carlos Cruz! -, para que esta organizasse as comemorações da passagem do milénio!   

Acontece que a Figueira da Foz não organizou nenhuma iniciativa para comemorar a passagem do milénio em conjunto com a Câmara Municipal de Coimbra... Será que Miguel Almeida e Pereira da Costa vão devolver estes cerca de 100 mil euros aos figueirenses?!

É claro que, no entanto, temos que reconhecer o mérito da CC2!

A  empresa sempre conseguiu contratar os artistas Demis Russos, D`Arrasar e Tocá Rufar, que custaram, apenas, 300 mil euros aos cofres camarários! A CC2 recebeu 100 mil euros, mas conseguiu que a Câmara pagasse só 300 mil euros pelo grande espectáculo de passagem do milénio!

Para além, claro, da tenda Vip instalada no Palácio Sotto Mayor, que permitiu que a “gente bem” de Lisboa e Figueira passasse o milénio no maior luxo! Quanto terá custado o aluguer e catering desta tenda aos figueirenses?!  

E ainda há uns tipos mesquinhos que se atrevem a criticar a dupla Pereira da Costa/ Miguel Almeida... 

Mas falemos de outra boa nova: Margarida Viana será a vereadora da cultura em caso de vitória do PSD!

A Terra de António Santos Rocha, Goltz de Carvalho, Joaquim de Carvalho, João Gaspar Simões, entre muitos outros, terá como vereadora da cultura a Guida da Câmara, expert em acção social – trato a Margarida por Guida porque, carinhosamente, toda a cidade a trata assim.

Ora, vejamos as promessas do PSD e da Guida para a área da cultura: prometem criar a Figarte, Feira Internacional de Arte Contemporânea da Figueira da Foz, uma Bienal de arte urbana e um Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental; promessas fantásticas!

O ano passado, por iniciativa de privados e da Associação Galaico-Portuguesa, ocorreu, numa sala de exposições da zona industrial, a primeira feira internacional de arte contemporânea da figueira da Foz, a Figarte! A autarquia, por sua vez, promoveu o Criativa, uma bienal de arte urbana! E, a cereja em cima do bolo, o CineEco, festival internacional de cinema ambiental com 18 anos de existência, tem uma extensão à Figueira da Foz! 

E o que diz a Guida do facto de Miguel Almeida ter pertencido ao executivo que acabou com o Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz?! Um dos mais importantes festivais de cinema independente do mundo, que revelou nomes como o de Wim Wenders, Almodovar ou Samuel Fuller!

E o que opina sobre o facto de o Festival Internacional de Música Clássica, dirigido por Sequeira Costa, um pianista de fama mundial, ter acabado?! Não é um crime cultural acabar com um festival de música clássica com reputação internacional?! E que custava muito menos que o Netinho ou a Fafá de Belém?!

Mas vejam o sentido cultural de Miguel e seus amigos: o prémio literário Joaquim Namorado foi cancelado; o centro de artes de Buarcos foi encerrado; o coro dos Pequenos Cantores deixou de existir e a Gala dos Pequenos Cantores acabou!

E tudo isto vindo de gente que afiança amar imensamente a cidade!

Realmente, a desordem das nações impera; o governo não governa, a oposição não faz truca-truca, Ataíde poupa dinheiro e faz obra... Alguém, em consciência, pode votar em Miguel Almeida, Pereira da Costa e na Guida da cultura?!

   

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O Aleixo


Recordam-se de António Aleixo?

O poeta das quadrinhas populares:
“Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas,
lições de filosofia”.

Uma amargura real, de Aleixo e de um povo pobre e analfabeto que ainda subsiste vendendo cautelas, pastoreando, cantando de feira em feira, sendo servente e pedreiro; Aleixo tudo fez, mas nunca saiu da miséria...

Aleixo vingava-se da injustiça deste mundo através de quadrinhas populares; pergunto-me: que quadras utilizaria ele se lesse as declarações dos populares que apoiam Miguel Almeida?!
No facebook do “Somos Figueira” (PSD), estão reproduzidos testemunhos de apoiantes de Almeida; por exemplo, Rui Azevedo - 35 anos, São Julião - apregoa que Miguel Almeida “é um homem frontal e rigoroso e por tudo o que já fez pelo país e que já solicitou para o nosso concelho” é que Azevedo apoia Almeida.

Vejamos ponto por ponto: Miguel Almeida é um homem rigoroso?!
Bom, Miguel Almeida fez parte de um executivo que cometeu o feito de aumentar a dívida em 340% ! E, já agora, vejam a dívida a fornecedores: em 2001 era de 2,3 milhões de euros; em 2005, chegou aos 33 milhões de euros! Ou seja, um aumento de 1304%!
Este cenário até seria cómico se não fosse tão trágico: algumas empresas acabaram por falir porque a autarquia não lhes pagou...
Como diria António Aleixo:

Quantas sedas aí vão,
quantos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!”

Rui Azevedo garante-nos, ainda, que Miguel fez imensas benfeitorias  pelo “país”. Já Cristina Martins – 45 anos, Borda do Campo – afirma: “Acho que o Miguel Almeida é um homem sério, íntegro e acima de tudo é figueirense”. E Manuela Marinheiro – 74 anos, São Julião – conclui: “ O Miguel é o futuro!”
Vejamos o passado, pois só assim poderemos compreender o presente e o futuro: Miguel Almeida passou de administrativo da Cercifoz a vereador, de proprietário de um restaurante de luxo a deputado da Assembleia da República, de chefe de gabinete a gestor de uma empresa pública que se dedica ao tratamento de lixos. E tudo isto sem ter concluído o ensino secundário!

Não terá que ser Miguel Almeida a agradecer ao país?!
Ou, como diria Aleixo:

“Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba”.

Mas há um episódio que ajuda a aferir se Almeida é um “homem sério” e “integro”, como afiança a Cristina Martins da Borda do Campo:
Em 2005, Miguel Almeida foi constituído arguido no âmbito do caso Freeport.  O Ministério Público, com base em provas testemunhais,  acusou Almeida de ter participado num conjunto de reuniões – com jornalistas e agentes da judiciária – no sentido de ver “publicada informação que denegrisse a imagem de José Sócrates” (conforme despacho da magistrada Inês Bonina).
Sabem o que o “sério” e “integro” Miguel Almeida fez para se defender? Nada. Não suspendeu o mandato de deputado da Assembleia da República, que lhe conferia imunidade parlamentar (o que, de resto, causou imenso incómodo na bancada parlamentar do PSD e no, à data, líder do partido, pois Marques Mendes tinha impedido Isaltino Morais de se recandidatar em Oeiras...).

Miguel não quis defender a sua honra; António Aleixo diria:
“Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando”.

E a verdade é mesmo esta: António Aleixo nasceu pobre e teve de  trabalhar de sol a sol para sustentar a família; Almeida, de origens humildes, viveu a vida inteira da política, daquela politicazinha mais baixa e irresponsável...
Vejam o que ele fez na Figueira da Foz, na qualidade de vereador do executivo mais despesista de toda a história autárquica do concelho! Querem exemplos?! Gastaram-se 300 mil euros no pórtico da entrada da cidade, 40 mil euros num tapume para tapar salinas da margem sul, 150 mil euros num natal e passagem de ano (com direito a tenda Vip, no Palácio Sotto Mayor, para a gente bem da cidade...), 350 mil euros numa discoteca na Morraceira, 900 mil euros num centro de congressos que nunca passou do papel, etc, etc.

Só neste breve resumo, contabilizo 1 milhão e 740 mil euros...

Confesso que me sinto como António Aleixo:

“Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade”.


 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Piranha


A bocarra e os dentes afilados são ameaçadores, no entanto, os cartazes pululam pela cidade, anunciando: “Já viu? Tubarões na Figueira da Foz, Parque das Gaivotas”; de facto, Israel Modesto apresenta o circo Merito na Figueira da Foz até ao próximo dia 11, com um inédito e arriscado número: o mergulho de Sílvia Merito em 2 gigantescos aquários onde vivem, harmoniosamente, tubarões da Flórida e piranhas da Amazónia...

Não imagino como será a interacção entre Sílvia e tão dóceis animais, apenas me questiono quanto à fiabilidade das mensagens publicitárias: o cartaz pretende anunciar a trituração da mergulhadora ou, antes, divulgar que os tubarões e piranhas, da Flórida e Amazónia, amam Sílvia Merito?!

A mensagem publicitária é, de facto, uma falsa ilusão; reparem no outdoor de Miguel Almeida, do PSD, que também pulula pela cidade: “Prá Frente Figueira”, anuncia o slogan; ora, todos sabemos, que Almeida foi vereador de um Executivo que deixou o concelho na falência técnica... Por isso, quem acredita no “Prá Frente Figueira” de Almeida, também se fia na piranha da Amazónia ou no tubarão da Flórida...

Almeida garante, também, que a sua candidatura representa um movimento de figueirenses de gema, o “Somos Figueira” – estranho, que na lista à vereação da coligação não apareça ninguém dos restantes partidos... -, que se define em 2 patrióticas frases-chave: “quem ama a Figueira, cuida” e “desculpem a modéstia mas sou figueirense!”.

Ora, todos sabemos, que Miguel pertenceu a um Executivo - liderado por um político que nasceu, cresceu e viveu em Lisboa – que fez aprovar uma proposta de demolição da Piscina-Praia, um dos ex-libris da Figueira da Foz, e a sua substituição por uma praceta e uma torre de apartamentos!  

Mais: o próprio Miguel Almeida, em Novembro de 2004, numa entrevista a um jornal local, explicou o seguinte: “Terminado o mandato (na Figueira), estive seis meses a viver em Espanha, a desenvolver um negócio de restauração”.

Ora, Almeida, o homem que ama perdidamente o concelho, andou a investir o dinheiro que ganhou na política – pelos vistos, a política figueirense foi extremamente rentável para Miguel! – em Espanha, em Marbelha!

Por fim: Miguel só deseja servir a amada Figueira no momento em que está desempregado, pois já não é deputado nem tem nenhum daqueles “tachos” que Santana lhe arranjou em Lisboa...

Estou confuso, começo a acreditar que as piranhas vêm mesmo da Amazónia...

  

 

 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Citação


A política é constituída por homens sem ideais e sem grandeza”, assegurava Albert Camus. Já Voltaire afiançava: "A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”.

A nobre arte de pilhar as palavras dos outros está em todo o lado: não há discurso, entrevista ou texto político em que não surjam citações, pensamentos, aforismos de grandes pensadores e filósofos.

Sócrates, o político, na famosa entrevista que deu ao Expresso antes de se candidatar a líder do PS, citou, na perfeição, uma chusma infindável de autores, como Aristóteles, Ortega y Gasset, Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço, Nietzsche, Marx, etc, etc... Impõe-se, então, mais uma citação: "Parece um absurdo, e no entanto é a exacta verdade, que, se toda a realidade for vazia, não haverá mais nada de real nem de substancial no mundo além das ilusões." – Giacomo Leopardi.

Já a Figueira, capital do império ilusório, tem em Miguel Almeida o seu grande citador: o candidato a Presidente da Câmara pelo PSD, na condição de cronista semanal do diário As Beiras, brindava-nos com imensas citações nos seus escritos...

Assim, coerentemente, importa citar abundantemente no momento em que se escreve sobre a brilhante carreira política de Almeida. Comecemos por Rémy Gourmont: "A política é como o piano e a prostituição: é preciso começar de muito novo, caso contrário não se chega a nada."; e Almeida iniciou-se nas lides políticas ainda jovem, até porque a “política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação” (Robert Stevenson).

E a verdade é mesmo essa, Miguel cometeu o feito de chegar a vereador de Santana Lopes sem um currículo minimamente aceitável: foi um péssimo aluno no Secundário, não chegou a ter um emprego a sério... cacicou, conspirou, colou cartazes, trabalhou em associações ligadas ao PSD, tudo menos estudar ou preparar-se politicamente para um cargo com a importância de vereador camarário; como diria Francis Bacon, “todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa".

O resultado foi o esperado: incompetência, irresponsabilidade, megalomania, despesismo... O episódio que melhor ilustra a acção de Almeida como vereador tem um nome: Pé-de-Salsa. Na altura, a autarquia decidiu gastar 350 mil euros de dinheiro público na instalação de uma discoteca na ilha da Morraceira. Repito: Miguel Almeida desbaratou 350 mil euros de dinheiros públicos numa discoteca e, como se não bastasse, concessionou-a abaixo do preço da renda paga pela câmara! Um negócio perfeito para quem quer desrespeitar os impostos dos portugueses. Como diria Louis Saint-Just, “todas as artes só produziram maravilhas; a arte de governar só produziu monstros”.

Ainda por cima, Miguel Almeida deslumbrou-se com o poder, largou a humildade e discrição que o caracterizavam mal alcançou o poder; o Almeida vereador passou a ser arrogante, sobranceiro e insolente (os funcionários camarários que foram, na altura, destratados pelo autarca podem confirmar este facto).

E a cereja em cima do bolo: antes de entrar na política, Miguel Almeida detinha parcos recursos; o Almeida vereador e político passou a apresentar sinais exteriores de riqueza: quem se esquece do carregamento de charutos, vindo de Cuba, que ficou retido na Alfândega? Ou do restaurante de luxo, La Bodeguita, que abriu em Marbelha mal deixou o cargo de vereador? Ainda bem que Baron de Montesquieu afirmou um dia: "A corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios".

Por que razão é importante recordar tudo isto? Porque Miguel quer ser Presidente da Câmara da Figueira da Foz, apesar de não haver “política sem ética, cansaram-se de dizer três dos nossos maiores: Herculano, Antero e Sérgio. A propensão de servir, a rectidão de carácter, a vocação para a fidedignidade, a instância de comportamento cívico foram ensinamentos desejadamente ecoantes, mas lamentavelmente desprezados por Governos vergonhosos”. – Baptista Bastos.

Almeida governou vergonhosamente a cidade e quer repetir a experiência... Só me ocorre o seguinte: "É uma pena que todas as pessoas que sabem como é que se governa o país estejam ocupadas a conduzir táxis ou a cortar cabelo". –George Burns.

 


 

 

domingo, 10 de junho de 2012

A Rinite

A ideia surgiu do nada, literalmente. O nada é o tempo entre velórios,enterros, jazigos, crematórios. Eu sei que, lá fora,o sol rutilante acicatava o chilrear da passarada arribada no enorme plátano que se ergue em frente à capela mortuária, mas naquele negrume absoluto não havia lugar para almas viçosas e robustas; a morte tudo tolda...

A muito custo, afastei-me da dor e observei o gigantesco plátano;
cogitei: mas o tempo não se poderia suspender indefinidamente?! As
árvores repletas de vida, os animais e os humanos, não mereceriam um
destino diferente?!

É claro que só poderia estar a pensar na minha própria morte; não sei
porquê mas não me entusiasma nada acabar assim: num caixão clássico,
fato demodé da Maconde posto – desculpem mas é o único fato preto que
comprei na minha vida -, deitado numa posição desconfortável com
coroas de flores a enfeitar-me e a provocar-me alergia, aliás, rinite
alérgica, garante a minha médica de família.

Mas, se o passar dos segundos, minutos, horas e dias, se suspendesse
indefinidamente, como funcionaria este mundo sem ocaso: a evolução
humana desapareceria de vez?! E a existência humana, ganharia,
finalmente, algum sentido?!

Acontece que, na Figueira da Foz, não seria problemático o fim da
evolução humana, aliás, tudo indica que o nosso concelho já atingiu o
seu zénite!
Culturalmente, os figueirenses seguem na vanguarda, em cada esquina da
cidade floresce um debate, uma palestra, a conferência ou a tertúlia
mais bombástica; resultado: os atropelamentos culturais têm entupindo totalmente as urgências hospitalares...
Na intervenção social e recreativa, a actividade é tão fervilhante que
acabam por existir mais instituições de solidariedade do que
vagabundos, e há muito poucos lugarejos para tantas colectividades.

Mas é na actividade política que a cidade atinge todo o seu esplendor!
Nestes últimos anos, centenas, aliás, milhares de figueirenses têm
aderido aos maiores partidos políticos do concelho! Perguntarão em
uníssono: como é que isto é possível?! Enquanto no mundo inteiro se
assiste ao ocaso da partidocracia, na Figueira, hordas de cidadãos
lutam por uma “fichazinha” partidária!  
Os partidos representam, portanto, o melhor dos mundos possíveis. Os grandes valores universais, a retórica mais tonitruante, as querelas ideológicas mais fascinantes; é por tudo isto, presumo, que o figueirense não resiste a transformar-se em camarada... Na Figueira, não há lugar para o caciquismo, o tachismo, a ameaça a quem vote na lista perdedora, e ninguém faz promessas descaradas nem pratica a maledicência mais rasca sobre os seus adversários. Ai estão os nomes dos grandes líderes partidários locais - João Portugal, Miguel Almeida, António João Paredes – a comprovar isto mesmo.                                                                 
Estou, portanto, perante um enorme dilema: continuo a defender que o
tempo se suspenda indefinidamente, acabando com a evolução humana mas mantendo a maravilha - cultural, social e política – que o figueirense
hoje representa?! Ou então, esqueço todo este disparate pegado, pois não há tempo suspenso que ajude a decifrar o maior mistério de todos os tempos: qual é o verdadeiro sentido da existência humana?!


Nascer para morrer carregadinho de rinite alérgica...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Sofista


Qual é o vossa máxima favorita? “Só sei que nada sei” ou “o homem é a medida de todas as coisas”?!
Ambas pertencem a outro mundo, à Grécia Antiga de Sócrates e dos Sofistas, mas, curiosamente, servem bem para definir este tempo, pelo menos no que toca ao homem ser, agora, definitivamente, a “medida de todas as coisas”.

É claro que há reservas morais no mundo, gente que não embarca no relativismo prático dos sofistas onde o prazer individual é o único bem; vejam o exemplo do monarca de Espanha que, borrifando-se para os 5 milhões de desgraçados desempregados - muitos futuros suicidas - viajou com a sua amante para o Botswuna, matou um elefante e declarou: “perdonem-me, mas el hombre és la medida de todas las cosas!”.
É claro que todos gostaríamos que Juan Carlos e os poderosos do mundo fossem como Sócrates o grego, pois procurariam sempre a essência da justiça, da virtude e do bem; e, convictamente, diriam: “só sei que nada sei”.

Eu sei que é uma utopia, até porque Sócrates vivia na maior pobreza, nada lhe importava senão cumprir o seu ritual: diariamente acordava de madrugada, tomava um rápido pequeno-almoço à base de pão molhado em vinho e, já trajado com uma modesta túnica e um grosso manto, dirigia-se para um templo, uma loja, os banhos públicos, qualquer lugar onde pudesse encontrar um parceiro de discussão; Sócrates só era feliz conversando, discutindo, pregando a ausência de qualquer certeza, apenas importava o pensamento claro, o domínio da razão e conhecermo-nos a nós próprios; Deus andará por aí...
Sócrates não escreveu nenhum livro, não quis discípulos ou escola, mas o seu método socrático de discussão das problemáticas mantém-se válido até aos dias de hoje. Refiro-me àqueles diálogos onde um dos interlocutores questiona insistentemente o seu oponente com perguntas simples, até irritantes, mas que servem para que o outro reflicta, raciocine e encontre respostas... talvez seja denso explicar assim o método, passemos a exemplificar o que escrevo ficcionando um diálogo onde se aplica o método socrático:

- “Eu acho que o director do semanário O Figueirense, Joaquim Gil, escreveu um editorial cobarde.” – afirmou Rui Beja.
- “Mas o que entendes tu por cobardia?!” – questionou Sócrates.

- “Cobardia foi o que Gil escreveu no seu penúltimo editorial. Sem nunca nomear o meu nome, adjectivou o meu carácter com uma série de insultos. Isso é a cobardia mais vil!” – respondi, indignado.
 - “Mas diz-me, como podes classificar o texto de cobarde se ainda não me apresentaste uma definição de cobardia?!” – afirmou Sócrates, já irritado.

Preferi não responder ao filósofo chato, importa mais explicar aos leitores o que motiva esta reacção.
Eu efectuei nesta Rua da Liberdade críticas sérias e educadas a duas instituições da cidade, o Casino e o periódico O Figueirense.
No caso do Casino, chamei a atenção para o facto de o seu administrador, Domingos Silva, gerir o casino como se fosse um político em campanha: distribui prebendas e subsídios a torto e a direito, sem aparente benefício económico para a empresa que o Casino é. O resultado desta política está à vista de todos: o casino encontra-se numa situação económica periclitante, tendo já despedido 80 trabalhadores!

Quanto ao Figueirense, constatei uma realidade que toda a cidade comenta em surdina: o jornal transformou-se num contra-poder à actual maioria autárquica.
Reparem como Joaquim Gil reagiu, no seu penúltimo editorial, a estas 2 críticas construtivas: “Dizem-me que por aí se escreveu ser este semanário “contra o poder”. Patetice, rematada patetice! Um disparate pegado que não merecia uma linha minha sequer, não fosse o facto de ser revelador de uma certa mentalidade sobre o “poder”, a forma como é exercído, a forma como é encarado. (...) Pior que tudo é que a seu lado logo surgem os aduladores, os louvaminhas, em linguagem comum, os “lambe botas”, os “queixinhas” (uma espécie de subchefes de turma que nunca cresceram) na busca de um lugarzito, de uma prebenda, de uma avença, de uma assessoriazita. Nesta corte jamais me verão, como está bem de ver!”.

Acontece que, na verdade, Joaquim Gil está nesta “corte”, “como está bem de ver”!
O causídico Gil prestou serviços para a Figueira Grande Turismo – terá sido uma “avença” ou uma “assessoriazita”?! - na altura em que a empresa era dirigida por Lídio Lopes. Foi, portanto, um gesto bonito ver Gil apresentar o livro de crónicas lançado recentemente pelo mesmo Lídio; 700 páginas de literatura merecem sempre um intelectual da estirpe de Joaquim Gil!

E porque não recordar o antepenúltimo editorial de Gil, onde o director agradece o empenho pessoal de Domingos Silva na operação que permitiu trazer o navio Sagres à Figueira – para Gil, a vinda do navio representou o “acontecimento” do ano na Figueira da Foz! Como vou classificar este elogio ufano de Gil ao seu patrão? Chamo-lhe “adulador, louvaminhas, em linguagem comum, “lambe botas”?!
Agora, não me furto a falar da minha vida profissional e política, para que os leitores possam avaliar se eu ando em “busca de um lugarzito, de uma prebenda, de uma avença, de uma assessoriazita”.

Eu já estive envolvido na política partidária, no caso, no PS, no tempo em que o partido socialista estava na oposição. Mas, neste tempo, em que o PS está no poder, ou seja, quando pode distribuir prebendas e avenças, eu tenho sido o maior e mais contundente crítico do líder concelhio do PS, João Portugal. Acham que quem quer um “lugarzito” critica desta forma o chefe dos socialistas?!
 Vejam o contraste: eu andei no jornalismo e nunca recebi um tostão pelo meu trabalho; passei pela política e nunca tive um lugar, um cargo, uma prebenda. Joaquim Gil, que nunca andou pelo jornalismo, acabou como director de um jornal que se resume a isto: propagandear as actividades de um casino e dizer mal do executivo camarário; é triste a sina de quem recebe dinheiro para ser a voz do dono...

Antes ser um vagabundo similar a Sócrates - que não cobrava um tostão pelas suas lições - do que parecer-me com Joaquim Gil, uma espécie de sofista; daqueles que, a troco de uns patacos, ensinavam retórica a políticos ávidos de poder.
A lição era sempre a mesma: nada de princípios ou ética, o “homem é a medida de todas as coisas”...

domingo, 8 de abril de 2012

A Lua

A Lua morreu e a autópsia foi inconclusiva; figado, coração, pulmões, rins, nada a apontar, parecem de uma gata jovem quando a lua, ou Luna, vivia há duas décadas nesta dimensão. O mundo repleto de mortandades, tragédias, dilacerantes dilemas emocionais e eu confinado a isto: um corpo de gata, branco, alvo, luminoso, agora féretro rígido...

O que nos resta senão caminhar em frente?! Nada... Caminhar em sentido literal é outra coisa, percorrer as Abadias na Primavera intermitente de Abril é uma novidade para mim; temos vento, muito, nuvens volumosas e com formas humanas, frio até, mas rasgos luminosos de sol sobre a passarada empoleirada no arvoredo; o chilrear incessante da passarinhada – estão a ver como os homens e os animais mal se distinguem? - representa a mesma melodia, nem as pequenas variações perturbam a harmonia.

E é mesmo isto que perturba e intriga: num repente a cidade é engolida pela natureza, nas Abadias são os chorões, choupos, plátanos, tílias, palmeiras, pinheiros mansos e bravos, acácias e pilriteiros que dominam... Mas, curiosamente, a natureza parece-se muito com o homem: estas árvores, algumas de grande porte, têm expressão, movimento, personalidade, juro a pés juntos que não ensandeci de vez!
Felizmente não sou o único primitivo a acreditar neste fenómeno, já na pré-história os egípcios e os indianos acreditavam que a alma humana podia encarnar em vegetais e animais; e, porque não, transformar esta crença num exercício político?!

Daniel Santos, grande mestre em urbanismo, não poderia bem ser um chorão, árvore com a capacidade de drenar os solos mais húmidos?! E João Portugal não dava um belo choupo - na espécie choupo tremedor (populus tremula) -, com as suas raízes tremendamente invasoras e destrutivas?! E não há um conjunto de “Migueis Almeidas” espalhados pelo território, verdadeiras Acácias a disseminarem-se e a destruírem os ecossistemas?! A botânica política é mesmo um território inexplorado, nem imagino que árvores corresponderão a Passos Coelho, José Sócrates, Marcelo, Cavaco, etc; apenas fico com a certeza que, se Deus existisse, nunca teria plantado tal arvoredo nesta ditosa pátria.  

Mas gostava de vos falar num político que não se assume, similar àquele arbusto pilreteiro das Abadias que nunca se assumiu como árvore pequena. Falo de Domingos Silva, administrador do Casino da Figueira mas verdadeiro político em acção; querem exemplos?! O casino vende jogo e animação mas não pára de tentar educar o povo (até as criancinhas do concelho puderam aprender a ser polícias, bombeiros e militares num casino!); não há colectividade e agrupamento concelhio que não tenha passado já pelo casino, decerto a animação que os clientes do jogo mais apreciam; para não falar nas vedetas da tv e nas grandes cabeças políticas deste país que não páram de arribar no casino; perguntarão, tudo isto não é bom?!

É óptimo! O problema é a situação financeira do Casino da Figueira, salvo erro, já foram despedidos mais de 80 trabalhadores para que as cartas   continuem a ser lançadas no casino; e eu pergunto, sem a menor demagogia: como se sentirá um trabalhador demitido ao saber que o casino paga uma pipa de massa à Fátima Campos Ferreira?! Dizem que recebe 10 mil euros por cada entrevista que efectua no casino... E este mediatismo todo serve para quê? Em tese, o casino não deveria estar agora a contratar mais pessoal, para fazer face ao aumento de clientes que o mediatismo sempre proporciona?!

Perguntas fundamentais para uma cidade que ainda depende muito do casino; não nos podemos arriscar a, no fim da actual concessão de jogo, perdermos o casino para Coimbra, Aveiro ou Leiria. Até porque perderíamos o semanário O Figueirense - propriedade do casino -, o primeiro jornal de casino do país a assumir uma postura anti-poder; neste momento o periódico ataca ferozmente o executivo camarário socialista, mas tenho a certeza que o jornal terá a mesma atitude no dia em que o político Domingos Silva for Presidente da Câmara da Figueira da Foz; querem apostar?!

Eu também aposto no seguinte: tenho a certeza que um dia vou reencontrar a minha gata Luna; vamos ser dois pinheiros das Abadias...